O mundo precisa de seu próprio sistema de gerenciamento de risco? Tradução por Marsh Brasil

Matérias 10 de novembro de 2020

Entrevista publicada originalmente pelo Brink News, em 16 de setembro de 2020 

Um livro publicado recentemente chamado Aftershocks and Opportunities - Scenarios for a Post Pandemic Future (Consequências e Oportunidades – Cenários para um futuro pós-pandemia, tradução livre) explora o impacto da covid-19 na economia mundial, geopolítica, meio ambiente, sociedade e vida profissional, de agora até 2035. Em um dos capítulos, o futurista David Wood explora a ideia de um sistema global de gestão de risco.

David Wood é presidente da London Futurists e diretor da Delta Wisdom, uma consultoria futurista independente. O Brink News começou perguntando a ele qual poderia ser o propósito de um sistema de gerenciamento de risco mais abrangente.

WOOD: Um dos motivos para um sistema de risco mais abrangente é que, muitas vezes, você precisa reunir percepções de várias perspectivas para realmente apreciar a natureza dos desafios e oportunidades à frente. Se você olhar para os atentados de 11 de setembro, descobriu-se que havia ampla evidência e inteligência que tinha sido vista por grupos individuais, mas porque havia compartilhamento insuficiente de informações entre as diferentes agências e imaginação insuficiente sobre o que o que os terroristas da Al Qaeda podiam estar fazendo, ninguém conseguiu juntar os pontos de maneira satisfatória de antemão.

Maior combinação de percepções

WOOD: Devemos ser mais transparentes e abertos ao reunir nossos insights, porque muitas vezes as maiores possibilidades surgem não apenas quando uma tendência avança, mas quando várias tendências colidem ou convergem de maneiras que observadores individuais podem não ter previsto.

BRINK: Fazer isso bem obviamente envolveria os governos cooperando uns com os outros e compartilhando conhecimento e informação. Como você prevê que isso aconteça em uma época em que os governos parecem cada vez mais nacionalistas e há cada vez menos cooperação global?

WOOD: Existem tendências preocupantes em relação ao populismo, mas, ao mesmo tempo, também existem tendências que encorajam os países a cooperar, mesmo nos países onde os líderes podem ser hostis uns aos outros – especialmente se eles puderem ser persuadidos da verdadeira escala dos riscos que enfrentam.

Um bom exemplo foi o que aconteceu na década de 1980, entre os ex-presidentes Ronald Reagan e Mikhail Gorbachev. Quando Ronald Reagan se tornou presidente, ele falou da União Soviética como o império do mal. Quando Mikhail Gorbachev assumiu o poder na União Soviética, a União Soviética considerou o Ocidente com grande hostilidade. Mas algo mudou, o que os permitiu trabalhar em direção a uma redução significativa nas armas nucleares. E esse foi o novo entendimento de que um ataque nuclear não destruiria apenas algumas cidades, mas que a poeira criada por essas explosões iria alto na estratosfera e poderia bloquear a luz do sol, criando um inverno nuclear que impactaria ambos os lados, matando muito mais pessoas do que o esperado.

Compreendendo um propósito comum

WOOD: Houve outros fatores, é claro, como a química pessoal entre os presidentes Gorbachev e Reagan, mas este é um modelo do que é necessário: discussões claras e confiáveis ​​sobre enormes riscos que farão até mesmo os líderes populistas nacionalistas reconsiderarem suas posições.

BRINK: Que papel você imagina que as Nações Unidas teriam nisso? Afinal, a ONU é um órgão de gerenciamento de risco criado após a Segunda Guerra Mundial.

WOOD: A ONU foi criada com a visão e o propósito certos para sua época, mas, como muitas outras organizações, se fossilizou e é vítima da inércia. Precisa ser regenerada ou rejuvenescida de uma forma ou de outra.

Precisamos que líderes globais e detentores de orçamento acordem para a responsabilidade de que há um número maior de grandes riscos do que nunca. Grandes riscos estão mudando de assuntos de preocupação ocasional para assuntos de preocupação constante. Os líderes precisam entender que, à medida que a tecnologia se torna mais avançada – não apenas inteligência artificial, mas também biotecnologia, cogno-tecnologia, robótica e nanotecnologia – ela abre enormes riscos, bem como enormes e novas oportunidades.

E, portanto, a probabilidade e a variedade do risco geral são maiores do que no passado, o que significa que é ainda mais importante que haja uma atenção pública suficiente para essa tarefa de entendê-los.

Tornando-se mais instruído sobre riscos

BRINK: Você fala sobre a psicologia da negação, que é uma característica humana comum no gerenciamento de risco. Você não pode imaginar algo como a covid-19 até que aconteça. Existem maneiras de mitigar isso ao pensar sobre o risco futuro?

WOOD: Precisamos estar imersos em discussões de cenários verossímeis para o que pode ou não acontecer, ao invés de apenas filmes de Hollywood. Precisamos nos tornar muito mais alfabetizados para compreender os riscos de surtos de doenças infecciosas, bem como os outros riscos de contágio, seja contágio financeiro ou contágio de malware, ou contágio de notícias falsas e assim por diante.

E precisamos entender as coisas de forma mais probabilística. Probabilidade é um conceito difícil, mas precisamos ajudar as pessoas a entendê-lo, então, quando coisas como gripe aviária, SARS ou MERS acontecem, o público reconhece que as coisas poderiam muito bem ter sido diferentes. Em cada caso, foi porque as doenças não eram suficientemente infecciosas para se espalhar facilmente de pessoa para pessoa, ou por causa da ação agressiva que vários governos tomaram para evitar que esses casos anteriores de infecção causassem danos maiores.

A ciência não é um entendimento fixo em preto e branco. A ciência se reavalia à medida que obtém melhores percepções. Precisamos estar preparados para conectar esse entendimento probabilístico em nossas ações. Eu gostaria que as crianças na escola aprendessem mais sobre planejamento e cenários de risco. Devemos todos nos tornar mais competentes ao falar sobre isso. Todos nós devemos aprender mais sobre exponenciais e saber como eles podem acelerar e desacelerar. E quando contamos a história recente, devemos dar mais crédito aos casos em que o planejamento de cenários teve um papel positivo a desempenhar no resultado.